_MEMÓRIAS DE UMA CAIPIRA_

_MEMÓRIAS DE UMA CAIPIRA_

Este espaço virtual, criado em 2008, é fruto de minhas andanças e incursões pelo ofício etnográfico na Ilha de Cananéia, no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, onde pretendo deixar minhas impressões como caminhante, ou tal como diria Helena P. Blavatsky, Lanu.

E no cais se fez história...

E no cais se fez história...
Das memórias imemoráveis dos moradores mais antigos, perpassando por suas bocas seus "causos", saberes e sabores desta ilha, esta caipira mantêm os olhos abertos e a mente relativizadora para fazer-se instrumento de captura dessas histórias de degredados, índias, sereias e sacis que cruzam esta Mata Atlântica e este estuário. Seja bem-vindo a este espaço onde os mitos e lendas que compõem a oralidade caiçara criam e recriam com seus "causos" que se espalharam para além mar. Prepare-se para encontrar tesouros perdidos, passagens secretas, pois a viagem ao imaginário do ilhéu acabou de começar... _Créditos Fotográficos Bianca Lanu_

26 de agosto de 2010

Reiada, Reisado ou Folia dos Santos Reis

Reiada, Reisado ou Folia dos Santos Reis é um folguedo de cunho religioso que se desenvolve entre o Natal e o Dia de Reis (06 de janeiro). A intenção é de reproduzir a viagem dos Reis Magos a Belém, por ocasião do nascimento de Cristo.
Os integrantes executam o canto de maneira compenetrada, erguendo a viola em posição de respeito, quando os versos falam de Cristo. O chefe da Reiada é o "Mestre", que puxa os versos acompanhado da viola, seguido do "Tenor", que acompanha ao cavaquinho e do "Tipe".
Os instrumentos da Reiada são rabeca, triângulo, violas, violões, caixa, ferrinhos e, muitas vezes, cavaquinhos.
O vídeo foi gentilmente cedido pelo filósofo Benedito Machado, que já contribuiu outrora em outros posts por aqui, filmado pelo seu filho Fernando e postado no Youtube por sua esposa Zizi. Mais uma vez obrigada!
Assistam!!!

I Mostra de Arte Contemporânea Caiçara


Músicos e compositores, coreógrafos e dançarinos, artistas plásticos, fotógrafos, escritores, intelectuais e representantes de diversas expressões culturais do litoral paulista se reúnem no final de agosto, em Santos, na I Mostra de Arte Contemporânea Caiçara, que acontece no dia 28, sábado, a partir das 14 horas, na Casa da Frontaria Azulejada, no Centro Histórico.

O objetivo da Mostra é celebrar a arte por meio do encontro entre manifestações tradicionais e obras mais ligadas à vanguarda, bem como fortalecer a produção artística local na busca de expressão universal. A ideia é apresentar ao público em um só local uma série de produções artísticas e reflexões sobre a arte produzida na região e sua relação com a identidade local.

Queremos resgatar nossas tradições e misturá-las ao contemporâneo, estimular a pesquisa e a criação artística, a produção, o intercâmbio e a difusão cultural, conectar a expressão artística regional à global e oferecer ao público uma intervenção entre música, dança, teatro, literatura, circo e artes visuais em evento de improvisação coletiva”, afirma Márcio Barreto, do Percutindo Mundos, grupo de música caiçara contemporânea, e curador da mostra.

A programação começa com uma atividade para crianças e adolescentes, simultaneamente às exposições visuais: “Olhares Marítimos” reúne fotografias de Biga Appes, Adilson Félix, Márcio Barreto e Christina Amorim. Estarão na mostra as esculturas “Aluminarte”, de Anak Albuquerque e Giovane Nazareth, “A Incrível Arte do Equilíbrio”, de Galeno Malfatti, e “Arte DuLixo”, de Tubarão, mais a gravura “Valongo”, de Fabrício Lopez, “Cores”, arte visual de Maurício Adinolfi, “Retratos” da artista gráfica Nice Lopes, os cartazes do Coletivo Action, com a série “Supremacia Caiçara” e o grafite de Valério da Luz.

Das artes cênicas e circenses, o evento apresentará “Ciranda Caiçara”, projeto que une arte e meio ambiente, “Pagu Mulher” com o grupo Gaia´thos e Escola Livre de Circo da Oficina Regional Cultural Pagu, a atriz Christy-Ane Amici (“Atro Coração”) e a Trupe Olho da Rua. Depois se apresentam o Projeto Guri, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, e o Centro Educacional e Recreativo (CER) da Secretaria de Cultura de São Vicente.

Para refletir sobre a identidade da região, o jornalista Alessandro Atanes, mestre em História Social, faz a miniconferência “Caiçara, Portuário, Oceânico”, com inserção de canções do projeto “Rota Literária”, sobre como a arte e a literatura mostram a região.

Às 18 horas, começa uma nova série de apresentações: Meire Berti e o Coral Fosfértil Baixada Santista apresentam “Indianismos”, a dançarina e coreógrafa Célia Faustino mostra a coreografia “Repetição e/ou Transformação”; outras coreografias são de Rita Nascimento, “Faz de Conta que Ela Não Estava Chorando por Dentro”, e de Kiusam de Oliveira, “Afrodescendência”.

Entre os escritores, Flávio Viegas Amoreira apresenta trechos de “Escorbuto” e José Geraldo Neres lê “Outros Silêncios”, além de Ademir Demarchi, editor da revista Babel, Jap Krichinak do Museu de Arte Popular de Diadema e Marcelo Ariel, que acaba de lançar o livro de poesia “Conversas com Emily Dickinson”.

Com participação do compositor Gilberto Mendes, as atrações musicais reúnem Zéllus Machado e Trio Kaanoa (música caiçara), o pianista Tarso Ramos, Percutindo Mundos - O Universo em Movimento, com sua Música Caiçara Contemporânea e o grupo Sidarta.

Às 21h30, para encerrar a Mostra, artistas e público interagem em uma intervenção multimídia, reunindo música, teatro, dança, literatura e artes visuais criando uma obra coletiva.

O curador Márcio Barreto explica a iniciativa de reunir vários artistas em um só evento: “A I Mostra de Arte Contemporânea Caiçara justifica-se pela necessidade de promover reflexões e debates sobre identidades culturais e sua importância para o cenário mundial, assim como assegurar e difundir o rico patrimônio artístico caiçara e sua relação com o global”.


Realização: Márcio Barreto (Instituto Ocanoa – São Vicente)

Apoio:
Marta Molina (Artefacto Cultural – Barcelona/Espanha)
Natalia Freire (Instituto CAE – Santos)
João (Instituto Camará Ponto de Cultura – São Vicente)

Divulgação:
Alessandro Atanes e Márcia Costa (Revista Pausa e Instituto Artefato Cultural)

13 de agosto de 2010

Blog Limite da Terra Paraná


Conheçam o blog Limite da Terra Paraná! Mais um colaborador em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar!
Acesse aqui!

5 de agosto de 2010

Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra


Em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar!

Você concorda que as grandes propriedades de terra no Brasil devem ter um limite máximo de tamanho?

Participe do Plebiscito Popular entre os dias e 7 de setembro de 2010!

Para mais informações acesse aqui.

4 de agosto de 2010

Ingoma, o Menino e o Tambor - a tradição do Batuque de Umbigada


Autor: Lucas Puntel Carrasco

Gênero e público-alvo: Ficção infantojuvenil

Assunto: Cultura caipira e afrobrasileira, modos de vida, cotidiano de menino do interior

Temas transversais: Diversidade cultural, ética e cidadania

Relevância: Lei federal n° 10.639, sobre ensino de história e cultura afrobrasileira e africana


Indicação de leitura do parceiro Lucas que já escreveu a pedido o Soneto Caniné, publicado no livro Histórias e Lendas Caiçaras de Cananéia, organizado por mim com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Estado da Cultura, de São Paulo e postado aqui no Blog Memórias de uma Caipira, e que também já contribuiu conosco cedendo o Soneto Azul-Marinho e o Soneto do Divino, originais de Pindá, a menina do mar e publicados posteriormente na etnografia Reza a Lenda: a cultura caiçara de Cananéia vivenciada no bairro rural de Santa Maria, escrita por mim também com apoio do ProAC, em 2008.


Confira a sinopse de

Ingoma, o Menino e o Tambor - a tradição do Batuque de Umbigada


Olhar para trás com orgulho e respeito. É esta a mensagem que crianças e jovens pelo interior de São Paulo são estimuladas a ler nas páginas de Ingoma, o Menino e o Tambor. A obra foi inspirada na convivência com o mestre de Batuque Vanderlei Bastos, de Piracicaba/SP, como também na vivência do autor, Lucas Puntel Carrasco, que caipira de Rio Claro/SP e afrodescendente cresceu vaquejando em sua infância naquele município.

De um jeito simples, Ingoma apresenta o menino Dito, que vive em uma comunidade negra na periferia de Piracicaba. Ele descobre a tradição do Batuque de Umbigada, ou Tambu, sempre cultivado no quintal por sua avó e por velhos mestres dos sítios da vizinhança e cidades como Tietê e Capivari – cuja comunidade quilombola, certificada pela Fundação Palmares em março de 2007, traz consigo um legado de resistência, organização e, sobretudo, conquista ao direito da terra.

Com prefácio de Zé Hamilton Ribeiro, editor-chefe do Globo Rural, e contra-capa assinada pelo sambista Nei Lopes, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural e autor do Dicionário Banto do Brasil e Enciclopédia da Diáspora Africana, o romance prioriza culturas em vias de extinção – caipira e quilombola – além de ser conduzido por proponente de relevância na área (escritor afrodescendente de origem caipira premiado no PAC 2006, da Secretaria de Estado da Cultura, de São Paulo pelo livro infantojuvenil Pindá, a menina do mar: sonetos para uma infância caiçara.

Considerando que a lei federal nº 10.639, de janeiro de 2003, torna obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira; que, em seu esteio, inúmeros cursos vêm sendo oferecidos para formar educadores capacitados no assunto; que, a exemplo do município mineiro Carmo do Rio Claro, o projeto “Vida Rural” oficializou na grade curricular o caipirês, matéria sobre linguagem, crendices, música e medicina popular caipira; nesse sentido o livro Ingoma, tanto no conteúdo do miolo como em seu suplemento pedagógico, resgata e valoriza os costumes e as tradições caipira e afrobrasileira; ou melhor, “afrocaipira”. Com isso, transmite esse fundamento para crianças e jovens dos ensinos fundamental e médio, promovendo, assim, sua continuidade.


Sobre o autor

Lucas Puntel Carrasco nasceu no Natal de 1979 em Rio Claro/SP. Trabalha em São Paulo com revisão de texto e assessoria editorial. Publicou Pindá, a menina do mar – sonetos para uma infância caiçara, que em 2007 lhe rendeu o prêmio PAC.

Editor e pesquisador do songbook PretoBrás, o livro de canções e histórias de Itamar Assumpção, o autor também publicou na revista Cronopinhos o conto ecológico Dulenega – um gosto de fábulas no mar de gatos, sobre lendas dos índios caribenhos kuna-yala.

Contato: lucaspuntelcarrasco@gmail.com

Comentários sobre a obra



“Ingoma, o menino e o tambor é um documento da dignidade e do respeito que existe na umbigada. Este livro é uma referência cultural e um momento de prazer para todos nós.”

José Hamilton Ribeiro (Editor do Globo Rural, prêmio Brasileiro Imortal e autor de Música caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos)


“Ingoma, o menino e o tambor é excelente fonte de informações sobre o universo que focaliza. Por sua linguagem e abordagem, é obra de valor literário indiscutível. E por seu conteúdo tem função social relevante, de valorização da cultura afrobrasileira, na importância educacional e motivação de uma positiva autoestima nos leitores afrodescendentes.”

Nei Lopes (Ordem do Mérito Cultural e autor da Enciclopédia brasileira da diáspora africana)


Ficha técnica

Título: Ingoma, o menino e o tambor – a tradição do batuque de umbigada

Autor: Lucas Puntel Carrasco

Ilustrações: Daniel Ribeiro e José Agustin Carrasco Mandeville

20 páginas

Formato: 16 x 23 cm

Editora: Puntel Editorial

Ano de publicação: 2010

1 de agosto de 2010

O dianho é tentador


Por Benedito Machado, filósofo e escritor

Nhô Florêncio se aproximou e me cumprimentou, com um toque da mão no chapéu de palha:

- Professô, quiria uma ajudazinha!

- Fala, Florêncio. Mas que diabo de porrete é esse?

- Jacatirão. Tive uma ajuda milagrosa do Bom Jisus e vou levá este pau pra deixá na Sala dos Milagres. Mas tem também a história, que vai junto, intão priciso de sua ajuda, porque não tenho iscrita prá isso.

- Não fale bobagem, Florêncio, o Santo não exige gramática, mas sinceridade. Deixa ver.

Ele me estendeu uma folha de caderno escolar, meio amassada, onde estava seu relato, numa caligrafia sofrida, que denunciava esforço e capricho. O relato (transcrito abaixo) agora faz parte dos ex-votos, depositados na Sala de Milagres da Basílica:

“Acriditem no que digo: não sêsse o Bom Jisus este mundão tava perdido. Porque o dianho anda solerte, cavando um jeito de destemperá nossa vida. Maginem que eu tinha me acoitado debaxo dum pé de jacatirão, por conta da guascada de chuva que me pegô de supetão, no meio do mato, quando vi um remoinho se achegando, de com força, arripiando as pranta, desvirando os graveto e dando um contorno adonde eu tava, pra decerto me acertá pelos fundo. Nessa artura, sabendo das artimanha do demo, que eu não sô apocado da cabeça, sartei de donde tava, gritando pelo Bom Jisus, que sempre foi meu protetô. No que eu sartei e gritei, um fuzir iluminô tudo, por chamado do malino, e se pregô em riba da arve, bem no lugá que eu tava, rebentando um gaio, que ia direto no meu cangote, se eu não me ispertasse e não chamasse o Sarvadô. Corri dali, que não se espera nada de certo do coisa ruim, mas memo com o sunsurro da chuva deu pra uvi o rincho daquela risada desmesurada, que o fite dá pra assustá a gente. Cheguei no rancho e pidi pra todo mundo garrá a rezá reza pesada, pra afastá de nóis o molesto do coisa ruim. Assim me sarvei e por isso truxe um pedaço do jacatirão, prá dexá na Sala de Milagre do Santo, junto com a minha história, em honra e pagamento da graça arricibida”.



Imagem extraída de:


http://blog.cancaonova.com/tvsp/2009/08/05/festa-de-bom-jesus-de-iguape/


31 de julho de 2010

Caiçaras de Ubatuba/SP



Imagens enviadas e gentilmente cedidas por Julinho Mendes.

30 de julho de 2010

Museu Caiçara


Conheçam o site Museu Caiçara, de Ubatura/SP (cliquem na imagem!).

Retomada

Pois é, depois de alguns meses atribulados o Blog Memórias de uma Caipira volta à tona com um convite aberto a tod@s que tenham trabalhos, projetos, ações, artigos, fotos e ilustrações sobre cultura caiçara, caipira, quilombola e ou cultura popular em geral para ser nosso/a parceir@ e disponibilizar esses materiais para este espaço virtual. Entrem, puxem suas cadeiras e venham tomar um cafezinho conosco!

6 de maio de 2010

Primeiro peço licença...

Por Rodolfo Vidal


Peço a benção e a permissão dos meus mestres fandangueiros e ancestrais para contar minha história e relação com o Fandango Caiçara da região de Cananéia.

Comecei a me interessar em querer aprender a tocar rabeca para me divertir com meus amigos em alguns forrós, logo fiquei sabendo que na Associação Rede Cananéia já havia oficinas de rabeca, foi então que tomei coragem e fui a uma delas.

Quando cheguei fiquei impressionado com que vi, era um maravilhoso e desconhecido universo do qual eu nunca tinha passado e nunca vou me esquecer.

Estavam lá nesse dia “Seu” João Firmino, que considero meu mestre rabequeiro, “Seu” Ambrósio Camargo, que contava várias histórias de fandango, “Seu” Agostinho Gomes, que é um grande construtor de rabeca capaz de dar um nó com a caxeta que ele cozinhava para fazer o aro, Amir Oliveira, Celsinho, Beto Pereira e suas infinitas modas, Hugo Emiliano e seu “finado” Davino de Aguiar, rabequeiro e construtor de rabeca.

Cheguei um pouco sem jeito e todos já estavam afinando seus instrumentos, quando “Seu” João falou: - Não quer pegar uma rabeca? Pega lá que eu afino pra você!

Depois desse dia não fui o mesmo!

Passei a ir toda semana para as oficinas na Rede, era um mundo do Fandango Caiçara que eu não conhecia, da afinação dos instrumentos as mais curiosas histórias e “causos” vivenciados, ou não, por esses jovens senhores mestres dos saberes tradicional.

A cada semana que passava ficava ainda mais fascinado em poder compartilhar alguns momentos que ia desde guardar os instrumentos, quando ameaçava cair uma trovoada (isso porque, para eles, as cordas dos instrumentos chamam os relâmpagos), até as mais lindas toadas entre Dandão e Chamarritas.

Nessa época Amir me convidou para ser parceiro no Projeto Resgatando o Fandango Caiçara, da qual organizávamos as Domingueiras de Fandango onde os grupos de fandango de Cananéia e região se reuniam para tocar e dançar durante as eternas tardes de domingo que adentravam a noite sem fim.

No inverno de 2006 tive a oportunidade de participar do I Encontro de Fandango e Cultura Caiçara, na cidade de Guaraqueçaba, PR, onde encontrei diversos tocadores, dançarinos, contadores de “causos” e, pela primeira vez, pude presenciar a dança do batido caiçara. Foi emocionante quando os mestres começaram a marcar o batido, tinha a sensação que estavam batendo dentro do meu peito.

Veio Canela, o nome em que batizei minha rabeca de cocho de 3 cordas feita de caxeta e canela preta confeccionada por “Seu” João. Era sua quinta rabeca

Já na primavera de 2006 participei do processo de fundação da Associação dos Fandangueiros de Cananéia (AFACAN), onde até a presente data me encontro como secretário e atuando como intermediador dos objetivos comuns dos fandangueiros para o benefício coletivo.

No outono de 2007 fui convidado para participar do Projeto Ação Griô Nacional, pelo Ponto de Cultura Caiçaras, como Griô Aprendiz e tendo como “Mestre do Saber” “Seu” João Firmino e “Seu” Hugo Emiliano, com o objetivo de levar a tradição oral aprendida com os mestres fandangueiros para dentro da escola ou fora dela.

Também tive a oportunidade de conhecer diversos lugares e pessoas nessa minha caminhada. No verão desse ano assumi as oficinas de rabeca na Rede Cananéia com a clareza de reinventar o aprendizado do instrumento mesclando minhas vivências de aprendiz de rabequeiro com noções básicas de Teoria Musical. Uma pequena semente que está sendo regada todos os dias.

Veio Lindinha, nome que batizei minha rabeca de aro de 4 cordas, também feita de caxeta e canela, confeccionada por Dito Roberto.

É sempre um grande prazer encontrar mestres e amigos fandangueiros para um toque de viola, como nós chamamos aqui, ou até mesmo uma contação de história, assim vivo aprendendo, escutando, sentido, ouvindo, ensinando, dançando, afinando, tocando... Viva a Cultura Caiçara!


*Texto publicado originalmente na obra literária de cunho etnográfico Reza a Lenda: a cultura caiçara de Cananéia vivenciada no bairro rural de Santa Maria, de Bianca Cruz Magdalena, 2008, produção apoiada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.


Foto de:
http://www.overmundo.com.br/agenda/degustacao-mundareu-oficinas-de-arte-e-cultura-popular

2 de março de 2010

A educação como base para a manutenção da cultura caiçara

André Murtinho Ribeiro Chaves[1]




“Um país não vive quando a juventude só tem acesso a valores de outros povos”.

Ariano Suassuna



O universo cultural


Quando moleque – até uns 16 anos – eu era um destes torcedores fanáticos por futebol, que sabiam toda a escalação do time e lembrava sem muito esforço de todos os gols, datas e histórias dos ídolos. Com exceção de Argentina e Uruguai, que têm forte influência européia, sempre que um time sul-americano jogava com a nossa seleção eram esperadas “goleadas históricas” – 5, 6, 7... a 0, 1... Quando a Bolívia, por exemplo, arriscava empatar, os locutores, comentaristas, repórteres de campo reagiam com um excessivo preconceito. “Desde quando futebol é um esporte na Bolívia”, diziam. ”Não podemos levar um gol deste timinho”. Nos dias que antecediam as partidas, havia um esforço tremendo em desqualificar o futebol dos “inimigos”. Um dia a Bolívia ganhou. Tragédia nacional... Este era o meu mundo e foi a partir daí que eu conhecia o restante da América do Sul.

Esta postura preconceituosa da mídia contra povos essencialmente originários se estendia em relação à economia e cultura: segundo se divulgava, não havia riquezas, nem coisas interessantes nestes países pobres periféricos. Quando falamos que um produto é do Paraguai, ainda é sinônimo de má qualidade. A imagem que se faz da Colômbia é de um lugar onde só existem traficantes e marginais, tudo gente perigosa, como narrado em filmes norte-americanos. A opinião, portanto, que eu tinha e que muita gente tem da América do Sul não europeizada é aquela que a televisão passa através do circo de suas informações. Parece verdade. Mas será que os povos originários, indígenas, eram por natureza pior do que os invasores europeus? Era uma questão genética ou algo historicamente construído? Por que negros e indígenas seriam piores do que os brancos?

Um dia – aos 24 anos – eu consegui chegar na fronteira com a Bolívia. Ainda era Brasil – Corumbá, no Mato Grosso do Sul – e foi por algumas horas, mas minha opinião começou a mudar. Descobri que os bolivianos era um povo, diferente sim, mas irmão. As mulheres se vestiam com trajes andinos, ainda que ao pé da “sierra”. Sentia que mesmo no meu país, eu respirava uma outra cultura, a rica cultura indígena sul-americana. Isto me fez bem. A partir daí comecei a refletir sobre a minha formação cultural... Voltei no tempo... Nasci em Aracaju, capital sergipana, próximo ao baixo vale do São Francisco. Sempre viajei para o Rio de Janeiro para visitar a minha avó e tias. Aos 17 anos fui estudar numa universidade em Campinas. E mesmo com esta mobilidade precoce, o meu universo cultural era essencialmente televisivo, com valores externos insistentemente martelados na minha cabeça. Ter cultura era, para mim, saber a cultura dos outros povos, principalmente europeus. Isto era sinônimo de erudição. Assim, eu caminhava para ser ao mesmo tempo erudito e ignorante.

Foi só após algum tempo, a partir dos 20 anos, conhecendo novos lugares e retornando periodicamente à minha terra é que eu (re)descobri a cultura sergipana: São Cristóvão, Itabaiana, Laranjeiras, Japaratuba, Nossa Senhora da Glória, Canindé do São Francisco, tantos lugares bonitos e ricos, ficaram 16 anos ali, do meu lado, e eu nunca havia percebido os ritmos, seus cantos, sua história: bacarmateiros, bumba meu boi, dança do parafuso, maracatu. Um novo mundo se abriu. No meio burguês em que cresci, pouco se valorizava esta cultura local. Hoje estou investigando a minha história. A terra da minha avó paterna – Porto Real do Colégio, lado alagoano do Rio São Francisco – era um território dos índios Kariri-Xocó. Também sei que por parte de mãe, tenho uma ascendência Bororo, do Mato Grosso. Além obviamente de genes europeus, que se mesclaram no Pará, e genes africanos, misturados em Alagoas e Sergipe. Toda esta diversidade étnica culminou num encontro nas praias cariocas, do qual o fruto foi produzido em solo sergipano.


O encontro de culturas


Conto um pouco do pouco que conheço de minha história para me fazer entender. Sei que muitos jovens que crescem numa rica cultura, como a caiçara, não têm a devida compreensão da importância deste reconhecimento. A paisagem, o jeito de falar, as profissões e vocações, a culinária, as danças... Como disse o Padre João Trinta em entrevista realizada para este projeto: até a década de 1960, Cananéia era uma vila com uma cultura produzida pelo isolamento e que com a chegada de órgãos públicos estaduais e principalmente da televisão, houve um rompimento de valores, que causou uma forte instabilidade. O encontro de diferentes culturas pode ser um rico momento para produzir uma nova cultura, mas acredito que estupro cultural é o melhor termo para definir o que tenho ouvido sobre esta época em Cananéia. Havia uma grande pressão cultural externa, de pessoas e de mídia, para que houvesse uma mudança de comportamento, visando um “jeito civilizado”, para ser mais claro: um comportamento presente na zona sul carioca (europeizado) e repetido ininterruptamente nos últimos 50 anos, através da TV e de diversos outros meios de invasão cultural. Caiçara, para quem chegava neste novo mundo, era sinônimo de preguiçoso. Isto gerou um descompasso violento entre a educação dos filhos e a formação dos pais. Somado às políticas de governo, deficiente nos diversos níveis, Cananéia vive hoje um momento cultural difícil. O jovem caiçara está meio perdido no meio de tanta informação, mas sem muita oportunidade. O que fazer com tanto ruído externo?


A situação do jovem em Cananéia


Minha experiência nestes 2 anos e meio de magistério em solo caiçara, me permite ver que a juventude cananeense é extremamente criativa e muito inteligente, como disse o Padre João Trinta. Mas, com diversas carências básicas, que têm influenciado diretamente na sua vida e nas suas opções, impedindo o seu desenvolvimento pessoal e frustrando os seus sonhos. Podemos resumir estas carências em duas: a) carência econômica e b) carência afetiva, ambas resultado de uma falência estrutural da sociedade. A primeira diz respeito à falta de políticas de desenvolvimento, sejam para emprego e geração de renda, sejam para cultura e educação. A opção econômica é diretamente responsável pela situação educacional. Educação aqui, em termos mais amplos, se refere à formação de vida da pessoa, escolar ou não. A educação por sua vez tem um forte componente afetivo.

A estrutura da escola brasileira como um todo e mais especificamente da escola paulista, é deficitária e atrasada. Mesmo com os recentes avanços da inclusão educacional, esta o foi essencialmente quantitativa, sem prezar pela qualidade do ensino e pelos novos métodos transformadores baseados na práxis pedagógica e na construção do próprio conhecimento. Como educar ou mesmo instruir um adolescente numa sala com 45 alunos? Como inovar pedagogicamente se não temos acesso facilitado a este conhecimento? Como sugerir uma nova postura na alimentação (e na vida) se o próprio governo manda comida enlatada e embutidos para os alunos? Por mais que haja um esforço dos professores, a escola não tem capacidade física e psicológica de dar conta de tantos problemas familiares. A carência afetiva das crianças e jovens caiçaras está atingindo índices alarmantes.

Muito em razão da (des)estrutura econômica, poucos pais têm tempo disponível para oferecer o aconchego necessário para o desenvolvimento cognitivo da criança e do adolescente. A necessidade de permanecer fora de casa, a exploração pelo trabalho e suas conseqüências, são nefastas para a família. Além disso, muitas crianças são frutos de relações indesejadas, o que muitas vezes causam rejeições do pai, da mãe, ou do restante da família. O crescimento do aluno no meio de abandono é um dos motivos que contribuem para a dor de cabeça de muitos educadores. Como diversos relatos mostram, além deste abandono, a convivência com o alcoolismo e a violência familiar – muitas vezes sexual – também contribui para um desenvolvimento comprometido (no mau sentido) do jovem.

Mas por que esta falta de planejamento familiar? Por que a gravidez na adolescência tem altos índices aqui no Vale do Ribeira e especificamente em Cananéia? Por que o alto índice de alcoolismo? Por que o repentino crescimento do tráfico? Será que estas variáveis estão relacionadas? É preciso investigar mais a fundo e de forma científica estas relações indesejadas, mas posso arriscar algumas hipóteses. Uma delas é o desemprego e a falta de oportunidades econômicas e culturais, já colocada acima. Talvez só isto não baste. Outra hipótese complementar: a pressão da “sociedade do consumo”, embarcada pela grande mídia televisada e escrita, colocando na cabeça do jovem a sensação de incapacidade de construção do seu próprio destino. O modelo individualista de sucesso colocado como o único possível, pode levar à frustração precoce e continuada do jovem, o que por sua vez pode levar à tristeza e depressão. Como sabemos, a adolescência é um momento de formação e instabilidade entre a vida infantil e a vida adulta. É delicado e caótico: qualquer alteração nesta fase pode alterar toda uma vida, sem previsão. Talvez seja por isto que muitas mães e professores se surpreendam que mesmo irmãos – até gêmeos – podem ter comportamentos e escolhas tão diferentes. Uma frase, um olhar... é o suficiente.

Nesta situação de extrema incerteza é muito fácil descambar pelo lado do individualismo, o que gera cada vez mais frustração. Afinal quando achamos que o sucesso e o fracasso é responsabilidade exclusivamente nossa, aumenta a nossa sensação de potência ou de impotência, conforme o lado. Como o sucesso – dizem os seus defensores – é para poucos, esta seleção natural resulta numa grande massa descartada e frustrada. O “consolo” pode estar no álcool e outras drogas. A busca rápida por um casamento pode ser um tipo de venda informal da vida, o que acontece com muitas adolescentes. Esta busca da felicidade, em último caso, pode resultar na prostituição.


O acesso à informação


Em todo este processo sobra pouco tempo e interesse para o jovem conhecer a fundo a sua história, o seu ambiente e mesmo a vocação de sua economia. Qualquer iniciativa que preze por esta busca da identidade sociocultural traz novos elementos para a resistência de uma vida esmagada pelo gigante do capital. Novos interesses em velhos territórios, formação de novos quadros jovens, busca de novas oportunidades acabam gerando esperança e reconhecimento no jovem caiçara. Nos últimos anos tem havido algumas tentativas neste sentido. Projetos de valorização ambiental (como o Cananéia Tem Parque), cultural (Resgatando o Fandango Caiçara) e econômico (como os de Turismo Rural e Agricultura Ecológica) têm prezado pelo desenvolvimento através do reconhecimento do modo de ser caiçara. Outros projetos educativos de iniciativa governamental – como Educação de Chico Mendes, Ponto de Cultura “Caiçaras”, Sala Verde, Coletivo Jovem, Coletivos Educadores e mais recentemente este – Saberes Caiçaras, mesclados com impulsos locais, têm levado alguns professores e alunos das escolas públicas de Cananéia a conhecerem de perto a história e realidade socioambiental do município.

Vivenciar este conhecimento local, indo à campo, agindo no seu resgate e manutenção, é uma maneira de educar esta molecada. Educar no sentido freiriano, de transformar a sua vida para melhor. Aumentar a auto-estima e o conhecimento de sua própria história é um requisito para um desenvolvimento legítimo. Se o jovem caiçara se sente capaz de se posicionar e de produzir (escrevendo, falando, tocando, cantando), é necessário dar capacitação técnica e ferramentas para que ele atinja seus objetivos. Com estas técnicas em mãos num meio receptivo, não é tão difícil escrever um boletim, um zine ou um jornalzinho. Uma rádio escola ou uma rádio livre (com transmissor simples) também não é tarefa complicada para jovens de uma cultura tecnológica (sim) que lida diariamente com a agricultura e a pesca.

Padre João Trinta coloca com bastante propriedade que a profissão de pescador é a mais ampla em conhecimentos, incorporando informações e práticas de diversas profissões: meteorologia, física, navegação, mecânica, biologia, oceanografia e outras áreas do conhecimento. Para quem convive com isto, um pouco mais de apoio técnico na área de comunicação é o suficiente para montar um periódico ou uma rádio. Não existe maneira mais legítima de educar do que este processo de produção de um novo conhecimento, vivenciado, com jovens educando jovens, na sua linguagem. A capacidade de ser dono do nosso próprio destino é uma qualidade a ser alcançada por todo indivíduo e qualquer comunidade, em qualquer idade.

É preciso ficar claro que quando se fala em resgate de sua cultura, nada impede que conheçamos outras culturas. Aliás, isto é preciso. Poucas pessoas compreendem que um índio da etnia M’bya Guarani não perde a sua identidade cultural se visita a cidade ou se adquire certos hábitos do ambiente visitado. Há um profundo preconceito em algumas posturas. Por que se critica tanto o uso de telefones celulares pelos indígenas? Nós não usamos os seus colares? O mesmo ocorre quando um negro alcança um posto de visibilidade na sociedade. Mas ele não era escravo, pobre? Como pode? A cultura não se perde por trocas, se perde por opressão, quando um grupo se coloca acima de outro. Segundo o professor da aldeia Morros dos Cavalos, em Palhoça, a uns 15 quilômetros de Florianópolis, Marco Karaí Djekupé, “a única coisa que uma comunidade Guarani não pode nunca abrir mão é da sua Casa de Reza. Não importa onde ela esteja. Temos o exemplo de uma aldeia que está na periferia de São Paulo, no meio dos não-índios. Mas essa aldeia tem sua Casa de Reza e lá as pessoas vão escutar as palavras antigas, para que a nossa cultura nunca morra”.

Assim, todo e qualquer preconceito social é mais uma tentativa de manutenção de privilégios de grupos historicamente dominantes, a custo da violência física ou moral contra povos oprimidos. O extermínio dos ancestrais guaranis ainda é incompreensível, ainda como não é possível para os seus descendentes entender a expulsão dos mesmos de terras a que historicamente lhes pertence. Para estes povos – assim como eram para os carijós – não existem fronteiras, existe um território: Ywy rupa. Se não existem fronteiras, para que guerras?


A grande mídia


Leio e ouço recentes episódios de ataques ferrenhos da grande imprensa aos povos e à cultura tradicional e penso no desserviço prestado por estes orgãos que deveriam informar criticamente o cidadão. Uma reportagem da revista Veja, de maneira preconceituosa, discriminatória e imoral se refere o povo M’bya Guarani (do qual os carijós eram um ramo) como invasor, estrangeiro, “Made in Paraguai”, como diz o título do artigo. Em matérias veiculadas recentemente e diariamente pelos Jornais da Globo, como "Crime no quilombo? Suspeitas de fraude e extração de madeira de Mata Atlântica" , também se denigre pessoas e localidades declaradas como remanescentes de quilombos, questionando a veracidade dos pareceres que tornam estas áreas de extrema importância histórica e cultural. Em ambos os casos há um desrespeito profundo por estas etnias, que se estende aos profissionais reconhecidamente idôneos de instituições reconhecidas, como a Fundação Palmares.

Coincidência (?) ou não (!), após esta reportagem televisada do Jornal Nacional, aparece uma pesquisa sobre a miscigenação brasileira – amplamente divulgada pelo jornal Estado de São Paulo, onde negros famosos fazem parte do público analisado. Entre eles, Neguinho da Beija-Flor (puxador de samba) e Daiane dos Santos (ginasta) descobrem que mais de 60% do seus genes têm ancestralidade européia. Já Sandra de Sá e Seu Jorge (cantores) têm uma ancestralidade predominantemente negra, cerca de 90%. Quanto aos métodos utilizados e à veracidade das informações ainda não tive oportunidade de analisar. Mas quanto à postura dos editores do Jornal Nacional, posso afirmar que houve manipulação completa, pois só foi divulgado por esta emissora os negros de ancestralidade predominantemente européia, em tom festivo. Sandra de Sá e Seu Jorge não apareceram na reportagem.

Por que relato estes fatos? A grande maioria da população assiste o Jornal Nacional como se fosse o porta-voz da verdade, guardião da informação. Já a revista Veja é tida por boa parte dos formadores de opinião como uma referência. Os jovens e os pais destes jovens estão sujeitos diariamente a este bombardeio. Se não há um conhecimento da história e da cultura de sua região, de forma a permitir que estes espectadores tenham uma avaliação crítica da informação veiculada por estas mídias, o cidadão fica sujeito ao que estas empresas querem veicular.


Comentários Finais


Uma das poucas formas de enfrentar esta tendência de extermínio da cultura caiçara é contribuindo para que os jovens se organizem, descubram e produzam. Neste processo, pode se descobrir – ao contrário do que conta a história oficial – que a cultura caiçara é o encontro da cultura européia (portuguesa) com a indígena, com pitadas africanas, espanholas e alemãs. Quem não gostar de trabalhar por trabalhar, não é ser preguiçoso, e sim sábio. Também se descobre que, apesar da truculência dos portugueses que chegaram, temos que aceitar a sua cultura. Assim, como tive que aceitar por muito tempo torcer por um time de futebol, cujo nome representava toda esta violência: Vasco da Gama. Mas que me traz alguma identidade: entre a minha infância futebolística e a cruz de malta, existe o símbolo de Cananéia.


* Texto publicado em Saberes Caiçaras: a cultura caiçara na história de Cananéia, Cleber R. Chiquinho (Org.), 2007, Ed. Páginas & Letras.


[1] Mestre em Ecologia, docente da Escola Estadual Profa. Yolanda Araújo Silva Paiva e membro do Coletivo Educador de Cananéia.

19 de fevereiro de 2010

Caipira fala bonito


Por Lucas Puntel Carrasco, extraído de Almanaque Brasil, com ilustrações de Laura Andreato


Mistura de português arcaico com castelhano, línguas africanas, tupi-guarani e fonemas criados no meio rural, o dialeto caipira é uma forma de manter vivo um jeito de viver que está sumindo. Mesmo sem saber, e às vezes até envergonhado, o caipirês é uma forma de resistência da tradição. O sotaque do caboclo, seu chapéu de palha ou as mentiras que conta pra impressionar ganharam o nome bonito de Patrimônio Cultural Imaterial.

Articulando palavras abreviadas, reduzidas pela metade, sem concordância no plural, com pronúncia diferente do padrão formal, esse jeito de falar está longe de ser errado.

O parâmetro do certo sempre foi a cultura erudita, mas o costume popular e tradicional também tem seu espaço. Afinal, esse sotaque carregado expressa todo um modo de ser.


Glossário da Roça


Algumas palavras e expressões do povo do campo

bacuri: criança recém-nascida

bestagem: bobagem

caboco: pessoa muito simples

campiá: procurar

dasveis: às vezes

de banda: de lado

escangaiado: destruído

estórva: atrapalha

gaitada: risada estridente

meia-pataca: insignificante

módequê?: qual a razão?

nhô: tratamento respeitoso de senhor

orná: combinar

pé de boi: pessoa decidida, muito trabalhadora

questã: briga jurídica; pergunta

réiva: raiva

suzim: sozinho

táio: talho; corte

tôco: pessoa muito rude; pedaço pequeno de um tronco

xicra: xícara

zambeta: que tem a perna torta

zarôio: caolho

zóio: olho

zorêia: orelha

zunhada: unhada, arranhar com as unhas


Extraído de Pequeno Dicionário de Caipirês, de Antônio Carlos Affonso dos Santos
(Nativa, 2001).


O caboclo é bom de enxada

Por Lucas Puntel Carrasco, extraído de Almanaque Brasil, com ilustrações de Laura Andreato


“Entre as raças de variado matiz, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz da evolução. Feia e sorna, nada a põe de pé.” Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, um caipira dito atrasado e cheio de vadiagem, resolveu garrar na enxada, cuspir na palma da mão e vir espiar o que andam espalhando a respeito da sua pessoa por aí. O caipira é do jeito que é, assim meio quietão, e tem lá suas razões. O sociólogo José de Souza Martins rebate as palavras de Lobato: “O caipira preguiçoso estereotipado contrasta radicalmente com a profunda valorização do trabalho entre as populações caipiras do Alto Paraíba, nas vizinhanças da mesma região montanhosa em que Lobato trabalhou”. Ou seja, quem enxerga o caipira como quem não tem o que fazer deve estar é ruim das vistas. Nunca vi, que nem o sitiante, sujeito tão ligeiro pra carpir uma roça e cuidar dos bichos, nem tão disposto a ajudar a vizinhança num mutirão pra colheita. Cheio de honra na sua palavra, o Jeca recebe de bom grado a mesma ajuda que, a troco de serviço, retribui no sítio dos parceiros. Porque na roça é tudo assim: trabalho é o que não falta e o que se recebe é pra Deus.

Aventureiros sem bandeira

Nada de vadiagem pra quem abriu esse Brasil na enxada e na coragem. O professor Antonio Candido explica melhor: “Da formação histórica de São Paulo resultou uma sociedade cujo tipo humano ideal foi o aventureiro, [...] irmanando-se na vida precária imposta pela mobilidade [...] que deixou no caipira certa mentalidade
de acampamento”. Na beira dos desbravadores do tempo das Bandeiras, o lavrador desbandeirizado foi ficando pelas veredas, capengando no ócio. Marginalizados, se tornariam agregados dos afazendados na cana, fincando pé como sitiantes nas roças de toco, cuidando só do de comer e lavrando assim a raiz da cultura caipira.

"Cada toada representa uma saudade"


Por Lucas Puntel Carrasco, extraído de Almanaque Brasil, com ilustrações de Laura Andreato


Caipira gosta é de pegar o caminho da roça, picar a mula e queimar o chão depois da faina, ao fim do dia. Chega no rancho, janta sua farinha com feijão e arroz, que vai bem com qualquer mistura, emborca pinga no caneco e agarra desfiar as mágoas no dorso do pinho. Não é à toa que seja costume chamar de cebolão uma das afinações do instrumento de 10 cordas: de tão bonito, o cebolão arranca o choro de quem ouve a sua toada.

Violeiro bão pra diacho, Ivan Vilela diz que o sujeito passa metade da vida tentando afinar a viola, e a outra metade tocando desafinado. É causo que na certa lhe contou um caipira de velho corte, daquele que Benze os muriquinhos com galhinho de arruda e acredita em assombração da mata. Pois foi numa dessas prosas de luar alto que se campeou rio abaixo uma moda sobre o baruião que a passarada rebenta cantar de madrugada.

O motivo dessa cantoria toda é simples que nem picar fumo em palha de milho. Quando a moda versa sobre passarinho assobiando no galho, o sujeito quer mesmo é se gabar de sua liberdade cabocla. Agora, se na primeira voz o mote tem boiada deitando pasto, capricha uma terça acima, porque é o vaivém do caipira sertão adentro o assunto dessa pauta. Ô se é!


É tudo caipira memô, uia


Aqui tem caiçara e tem caipira, tem sim Senhor!


Por Lucas Puntel Carrasco,
extraído de Almanaque Brasil com ilustrações de Laura Andreato

_junho de 2008_


“Ô de casa! Se a roça render viçosa pro mutirão que ajudar a colheita, então a Folia do Divino vai ter bastante fartura esse ano.” Assim começa o mês de junho pro caipira. Filho do interior, herdeiro da sabedoria indígena, do labor imigrante e de superstições africanas, esse caboclo da terra aparenta pouca vaidade, mas tem um punhado de causo pra contar a quem quiser acreditar. Se achega então pra uma conversa ao pé do fogo. O bule de café tá em riba do fogão de lenha estalando na varanda do sítio. Vamo chegando!

Ó só…Não é de qualquer toco no chão que brota o jeito caipira de ser. Precisa fazer coivara, queimar a terra e rezar pras águas caírem. Só então, com seis dias de trabalho no risco, a cultura em apreço vem saída ao sol. Pragas e ervas daninhas fofam terra mais cansada. Isso também carpimos neste Especial Caipira. No mês do caboclo, já arregalando na folhinha em 24 de junho, este Almanaque resolveu contar pra vosmecês uns causos cheios de sotaque típico do interior paulista, e mineiro, e matogrossense…

Nascido em uma cultura marginalizada já na origem – “do entrechoque do invasor português com índios silvícolas e negros africanos”, para Darcy Ribeiro –, e além de tudo meio capenga pelo andar da carruagem, o modo de vida rústico do caipira resiste como Deus permite. Mas, como o “Hómi” é bão, ele dá muita sabedoria pra quem vive no mato, perto das plantinhas, e por isso diz-se que diz-se que o caipira guarda no quintal um chazinho pra cada tristeza, não é mesmo? Pois só de olhar pro céu o sujeito já sabe te dizer quando vai pingar chuva na flor do cafezal. Tá com piolho, nêgo? Esfrega bem no cocoruto chá de erva-doce com vinagre, que é uma belezura pra matar bicho… E não pensa que assombração da mata é só mentiraiada que inventam lá na roça pra impressionar, não. Ocê quer ver outra coisa? Então senta aí que vai ouvir por que o caboclo risca naquele pinho tanta moda sobre passarinho.

Quando chega junho, ê vem a Folia do Divino, ê vem os fogos de São João, ê povo animado. Quanta festança, sô! Balancê, anarriê, caminho da roça…


10 de fevereiro de 2010

Passo a narrar...

Bianca Lanu


O olhar, o ouvir e o escrever durante o processo empírico configuram-se em questões epistemológicas que condicionam a investigação antropológica, assim esses atos cognitivos de natureza epistêmica logram o saber dessa disciplina da área das Ciências Sociais e Humanas.


Ao passo que o olhar e o ouvir partem da percepção, o escrever está associado ao pensamento, cujo discurso criativo delineia a produção em Antropologia.


O sentido e a significação dos dados colhidos no trabalho-de-campo (fieldwork) são obtidos pelas explicações fornecidas pelos próprios membros da comunidade pesquisada, através da vivência entre eles e de entrevistas realizadas onde o ouvir tem um lado todo especial, desta forma, saber ouvir através de uma conduta relativizadora é de suma importância.


A observação participante, nesta medida, aprofunda as análises etnográficas onde o informante deve ser o interlocutor, bem distinto daqueles descritos por Bronislaw Malinowski, cuja relação não-dialógica permeava tais pesquisas de uma Antropologia iniciante.


Compreender o Outro através de sua ótica, não por nosso olhar com suas formas pré-estabelecidas eis a relativização antropológica.


O trabalho-de-campo, a partir destas considerações, é a experiência subjetiva de cada pesquisador, sendo que a necessidade de pensar na relação entre antropólogo e grupo pesquisado tem sido uma preocupação recente na Antropologia e questionar essa relação é o ponto chave para a construção de etnografias, conceitos e teorias antropológicas.


Nesta medida, a história individual do pesquisador versus o olhar sob o objeto estudado é à base dessa disciplina onde o “Como conhecer?” e “Para que conhecer?” se estruturam em um espaço para discussão constituinte do próprio campo da Antropologia, onde os diários de campo relatam as ambigüidades, angústias e sofrimentos do antropólogo frente ao Outro.


Mergulhar na subjetividade diante do Outro lhe remete ao pressuposto filosófico do “Quem sou eu mesmo?”, “O que significa minha própria cultura?”, “Quem é o selvagem e o civilizado?”, havendo um deslocamento permanente entre a própria identidade, o Eu, e os Outros, redefinindo a própria identidade de mulher, pesquisadora, e não apenas de “cientista neutro e assexuado”, imaginário social existente a respeito da antropóloga viajando sozinha, longe de seus pares e de seu cotidiano.


Nesta perspectiva, cada caminho reflete a forma individual e subjetiva do encontro de si mesmo a partir do encontro com o outro!


O estudo meticuloso dos povos e suas peculiaridades representam uma imensa contribuição ao conhecimento da diversidade sócio-cultural humana, sendo somente após a Segunda Guerra Mundial que se tornaram comuns estudos antropológicos de sociedades modernas.


Portanto, o ofício do antropólogo ou “como ter Anthropological Blues”, parafraseando Roberto DaMatta, requer uma Ciência que passa não só pelos sentidos, mas por um devir constante onde a escolha do informante requer alguém competente em descrever verbalmente seus arredores, sua cultura e a si mesmo, estabelecendo uma simpatia mútua entre etnógrafo e nativo, que são apreendidas e reveladas através da experiência de dar voz àquele que representa seu tempo, seu lugar e seu povo.


_Foto do Coletivo Jovem Caiçara tirada no bairro rural de Santa Maria, em Cananéia/SP, durante a execução do Projeto "Saberes Caiçaras," em 2007, apoiado pelo Programa de Ação Cultural (PAC) da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

9 de fevereiro de 2010

Uma história do povo e das águas


Por André Ribeiro Murtinho Chaves & Mayra Jankowsky *


Reza a lenda, certa noite de lua cheia, um pescador no rio Ribeira, próximo à imensidão do mar, escutou um barulho estranho, mas que não era o peixe cantando... Sentado em sua canoa prestou atenção e para sua surpresa eram as águas falando. E era uma história muito antiga:


“Muitas águas se passaram nesse rio: são nossos ancestrais aos quais somos muito ligados, desde lá de cima, onde nascemos, até aqui onde nos misturamos com nossos salgados irmãos. Mas um rio de tamanha importância e que damos vida, temos por obrigação conhecer sua história. Porque sua historia não é sozinha, ela conta muitas histórias. Desde que o rio existe, nós, as águas, vimos muitos tipos de peixes, de plantas, de bichos e, recentemente, até de gente.”


O pescador prestou atenção, pois nessa hora, a história a ser contada era dos povos que viveram ao longo do rio:


“Já vimos gente de muitos tipos e durante muitos séculos essa gente toda foi mudando, mas viviam sempre junto do rio, pescando e plantando. Diferente de agora. Agora ainda tem gente que mora junto do rio, e como antes, caça, planta e pesca, mas tem quem faz diferente. O povo mais antigo, planta mandioca, banana, milho, mexerica, feijão, arroz, cana e outras coisas. Ainda pescam e caçam. Cresceram junto do rio e da mata. Até começaram a plantar diferente, juntando a floresta com a comida deles, que hoje eles chamam de agrofloresta.


Já quem mora distante (e não sofrerá as conseqüências), vive de outras coisas, mas ainda vem usar o rio. De início, só usavam a água em umas plantações muito estranhas, plantações de uma coisa só que muitas vezes não são nem para eles comerem. É pinus, é eucalipto, é banana... Para plantar muito de uma coisa só, eles abrem estradas e chegam até a beira do rio. Com isso a água da chuva que devia ir para a terra e depois encontrar com as águas do rio acaba indo muito rápido para o rio. Só que nessa época, o rio já tem bastante água por causa da chuva. Mas em tempo que não chove são as águas da terra que deveriam passar para o rio, mas a terra já não tem mais água e o rio vai secando... Então, esse povo que se criou junto com rio vai se perdendo...


Ainda agora, nos últimos vinte anos, pensaram em fazer uma outra coisa diferente, parar as águas do rio para tirar força das águas que passam descendo. E nem é para o povo deste rio... esta energia vai para bem longe! É a barragem da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto. Vai ter água - muitos irmãos nossos - que ficará presa por muito tempo, no meio da podridão, e só uma parte vai poder continuar livre, sendo rio. E todo mundo vai sentir falta dessa água livre e pura: as plantas, os animais e o povo que vive do rio. As pessoas, que diferente dos outros animais e plantas, sabem falar, não são bobos nem nada, há alguns anos gritam que não querem essa tal hidrelétrica. Gritam, usando a ciência dos homens, que não vão mais ter roça, que não vão mais ter peixe, e pior: que toda sua história e seu saber vão se perder e, assim como as águas limpas, vão ficar parados, enfraquecer e talvez sumir.


É o que está acontecendo com os peixes e os povos que vivem lá no mangue, um povo caboclo chamado caiçara, que planta e que pesca, do morro até a praia. Este povo vive da pesca da manjuba, um peixe pequeno e saboroso, pescado há muitos e muitos anos e que sustenta milhares de caiçaras. Este sustento pode ter fim, já que nós, as águas do Ribeira, podemos chegar cada vez menos para este peixe e para o povo. E este povo que sempre cuidou para este sustento não acabar... E agora vem os homens ricos deste país e querem acabar com esta história de vida, estancar nossos irmãos e trazer a morte.


O mais estranho é que outros homens, desse mesmo povo, que nem vivem aqui, vão decidir o futuro do rio. Dá medo, porque já escutamos as águas de outros rios, contando sua triste história, de muitas barragens e pouca água, de muita energia e pouca comida, de muita promessa e pouca oportunidade, até o povo do rio ir embora.


Na cultura destes homens (que eu não entendo), riqueza é juntar todo o dinheiro do mundo na mão de poucas pessoas. Eles dizem que assim, vão melhorar tudo, mas vejo que o caiçara (que cuida melhor das águas) já sabe o que querem estes homens: eles querem mandar na água e na terra, tirar tudo o que puderem e vender para fora, pros estrangeiros. Para isto, já estão querendo fazer mais um porto lá em Piaçaguera, também em cima de nossa terra e do sofrido povo guarani... E isto também não é lenda, como a voz dessas águas. Isto é uma outra e triste história...”



* André M. R. Chaves é Biólogo, Mestre em Ecologia e Educador da Rede Pública Estadual de Ensino, em Cananéia/SP; Mayra J. também é Bióloga e Mestre em Etnoconhecimento.


Foto de Fernando Oliveira.